A mulher é o negro do mundo. A mulher é a escrava dos escravos. Se ela tenta ser livre, tu dizes que ela não te ama. Se ela pensa, tu dizes que ela quer ser homem”, citação de John Lennon em um mundo e uma sociedade extremamente machista.
Eu começo citando essa frase para enfatizar o quanto a mulher, nos dias de hoje e sempre, não consegue desvincular de imagens como sexo frágil, mães, donas de casa. E que as vezes a nossa própria sociedade que nos colocam em patamares importantes, nos descartam como um lixo ou um objeto.

Os olhos sempre se direcionam a nossa vestimenta, aos nossos modos, ao nosso cabelo, a nossa pele, as nossas gírias, ao nosso modo de se portar em uma festa. “Mulher fumando é feio”, “Isso é vulgar para uma mulher”, “Que corpo caído” , “Que cabelo mal cuidado”. São frases que escutamos diariamente. Você já tentou sair dos padrões ditos como certo ?
Eu tentei, eu saí, e desde então carrego nos meus dias uma briga interna entre satisfação pessoal e desespero. Satisfação por me amar …. AS VEZES, e desespero, por ser julgada e refletir no “as vezes” em me amar.

Meu nome é Isadora Arantes Ferreira, tenho 25 anos, moro em Goiânia, e participei do projeto Utopia da Marina Araújo.
O termo “utopia” vem para denominar construções imaginárias de sociedades perfeitas, de acordo com os princípios filosóficos de seus idealizadores. E para nós, mulheres, o que seria uma sociedade perfeita ? , eu respondo por mim mesma: aceitação. Parece simples mas envolve toda uma luta, que é interna, e vamos combinar, lutar consigo mesmo é a luta mais difícil que existe.

A marina me perguntou qual era minha história, e eu me perguntei ‘ Isadora qual é sua história? “ . Aos 22 anos me submeti a uma cirurgia que por pouco não teve um fim trágico, e aos 23 eu já não era uma pessoa obesa. Aos 24 a obesidade parecia não ser o meu maior problema. “Muita pele” , “af , e essa cicatriz “ , “Isadora vc se ama ?. “
ISADORA VOCE SE AMA ? “ás vezes “.

Passei por uma cirurgia complicada, emagreci , fiz tudo que sempre tive vontade, pintei meu cabelo de azul, e cobri o meu corpo com desenhos e tudo que eu amava. Me achava linda, AS VEZES. Hoje eu percebo a proposta do projeto , justamente por causa do “ ás vezes” . Além de quebrar todo o tabu padrão de mulher perfeita social, e englobar todas mulheres independente de opção sexual, cor de pele, estilo, cabelo, idade, ele engloba o amor próprio.

Um dia que a câmera da Marina eternizou o meu “ as vezes” , eternizou a minha vontade de ficar ali me achando linda pra sempre. Nós estamos tão fissurados em ter o perfeito, em ser perfeitas, que esquecemos o quanto nos colocamos de coadjuvantes na nossa própria historia. O quanto nos diminuímos por comentários de pessoas que nem sempre tem que ter um papel importante na nossa vida. O projeto é social, e é vital. Me fez esquecer de toda luta diária feminina, para poder me amar um pouco.

Utopia vem do grego “ou+topos” que significa “lugar que não existe”, e o “projeto utopia” vem de Goiânia, e ele é real. E para mim estará eternizado no fim de tarde, no autódromo, com o céu cor de rosa, em que a menina do cabelo azul esqueceu do “ás vezes”, por um instante.

 

Por Isadora Arantes Ferreira