“Hoje eu vou tomar um porre / Não me socorre, que eu tô feliz / Nessa eu vou de bar em bar / Beber a vida que eu sempre quis”. Os versos tirados de um famoso samba-enredo de uma das mais tradicionais escolas de samba do Rio de Janeiro, a União da Ilha, podem até trazer boas lembranças de outros carnavais, mas não devem, forma alguma, ser seguidos ao pé da letra, sobre risco de graves problemas para a saúde.

A orientação é do médico gastroenterologista Joffre Rezende Neto (CRM 15275 e RQE 10060), que chama atenção para a pancreatite aguda, doença de rápida evolução, causada principalmente pelo consumo excessivo de álcool, e que provoca a inflamação repentina do pâncreas. O principal sintoma da doença é a ocorrência de dor muito intensa na região superior do abdômen, acompanhada de náuseas e vômitos.

“Essa dor abdominal muito forte após o consumo excessivo de álcool deve ser um sinal de alerta. Se isso acontecer, o recomendável é levar a pessoa imediatamente para o hospital mais próximo”, orienta o médico, que é membro titular da Federação Brasileira de Gastroenterologia e secretário geral da Sociedade Goiana de Gastroenterologia.

Evolução rápida

Joffre Neto chama a atenção para o fato de que a pancreatite aguda, quando ocorre, tem uma evolução muito rápida e pode, se a pessoa não receber rapidamente a devida assistência médica, a doença pode levar a óbito. O médico, porém, esclarece que a doença tem um tratamento relativamente simples e que, quando diagnosticada e tratada precocemente, quase sempre, tem uma boa evolução.

“O tratamento exige a internação, muitas vezes na Unidade de Terapia Intensiva, onde o paciente recebe cuidados para alívio da dor, reposição de eletrólitos e hidratação intensa, e monitoramento de outras complicações graves como necrose e choque séptico. Muitas vezes é necessária a interrupção da ingestão de alimentos por via oral durante algum período”, explica o gastroenterologista.

Segundo o gastroenterologista Joffre Neto, os quadros de pancreatite aguda chegam com  maior frequência às unidades de emergência durante o período do carnaval, justamente pelo excessivo consumo de bebidas alcoólicas que se costuma haver nessa época do ano. E no caso das bebidas alcoólicas, já consumidas pelos brasileiros em grande volume, esses excessos são muito prejudiciais pelo risco de se desenvolver o quadro de desidratação, pela pouca ingestão de água, e doenças como a pancreatite aguda”, diz o especialista.

Excesso

Essa preocupação do especialista para com o consumo excessivo da bebida não é por menos. Levantamento da Organização Mundial de Saúde (OMS) mostra que os brasileiros consomem, anualmente, 2,5 litros de álcool puro por pessoa a mais que a média global, que é de 6,4 litros.

O médico Joffre Neto lembra ainda que, além da pancreatite aguda, há ainda a pancreatite crônica, também causada pela ingestão excessiva de álcool ao longo de anos, e que costuma se manifestar de forma lenta e progressiva, provocando o endurecimento e a redução do tamanho do pâncreas.

“A pancreatite crônica, muitas vezes decorrente da ingestão excessiva e constante de álcool, compromete a qualidade de vida do paciente ao provocar repetidas crises de dor, diarreia crônica, diabetes e dificuldade de ingestão de alimentos. No tratamento de pancreatite crônica, o paciente não precisa ficar internado. Nesse sentido, estudos científicos mostram que quanto mais tarde os pacientes são diagnosticados e submetidos a tratamento, maiores são os riscos de complicações ou até de morte”, conclui Joffre Neto.