Era a segunda noite de peregrinação pela unidade de saúde. Minha filha e uma amiga estavam com suspeita de dengue. Era uma noite comum, unidade cheia, e senha para emergência. Atendentes grossos, ríspidos e de pouca conversa, mas o diferencial daquela noite estava para acontecer.

Após horas vendo todos aqueles pacientes, uns reclamando, outros cochilando nos bancos, alguns sentados na pilastra de cimento batido ao lado do estacionamento de ambulâncias. Um casal inusitado que batiam boca, pois o homem tinha medo de injeção. Ao redor todos riam, uns com mais discrição, outros davam gargalhadas.

O nome da minha filha e da minha amiga foram chamados pela enfermeira, adentramos naquele corredor, os pacientes eram colocados em ordem nas cadeiras, eu já estava com as pernas cansadas, resolvi sentar um pouco.

Estava ali sentada papeando com minha amiga. Quando a enfermeira me olhou sentada e perguntou: Aí tem uma vaga? Olhei para meu lado e vi as grades fechadas, deduzi que ela queria o banco onde estava sentada. Brinquei com minha amiga e disse: a invisível vai levantar para não estressar. Saí rindo, um pouco sem graça. O que não sabia é que iria presenciar algo nunca visto.

Ajeitei-me no fim do corredor, de frente a reanimação, nesse momento ele apareceu, deveria ter quase dois metros de altura, calçava uma crocs branca, uma roupa hospitalar azul marinho, com máscara, o anjo tinha cor negra.

Ele corria de um lado para o outro, em meio à correria dele resolvi firmar o olhar nos acontecimentos. Logo a minha frente, um senhor de cabeça branca, aparência de uns 60 anos, sem camisa, com um crucifixo prata no peito, bermuda cor mostarda, numa tonalidade clara, tinha dificuldade para respirar, eu olhava o senhor e o anjo.

Meus pensamentos remetiam o que ia acontecer, sentia arrepios só de pensar, a presença daquele anjo era um sinal. O senhor ainda com muita dificuldade em respirar, olhou em minha direção e disse: “Moça tô com medo”. Logo o anjo chegou com o cilindro, colocou o oxigênio nele, uma enfermeira sem reação a tudo, colocou o soro, outra pegou a cadeira de roda. Perguntou se o senhor conseguia ficar de pé e ele apenas balançou a cabeça, dizendo que sim. Levantou-se e sentou na cadeira de roda. Mal sabia ele o seu novo destino.

Foram para uma sala, eu olhava o corredor tentando imaginar o que ocorria lá dentro. Logo o anjo passava correndo, duas seringas com medicação na mão, outro segundo o aparelho de pressão. Uma voz dizia traz a adrenalina, uma outra, corre com a morfina, e o anjo ia de um lado para o outro.

Minha menina foi chamada ao consultório, ali durante o diagnóstico, uma médica abriu a porta e disse: “Doutora, precisamos da senhora. Ele parou”. Eu logo disse: Oh meu Deus, cuida dele. Saímos do consultório, outro médico chamou minha amiga, em meio à consulta a doutora falou: “Precisamos ajudar, ele teve PCR “Parada Cardiorrespiratória”. Saímos do consultório. Procurei o anjo, de um lado, de outro e não o vi. O anjo não estava mais ali.

Enquanto a carona não chegava, do lado de fora da unidade, em frente à janela da reanimação, vi o desfibrilador sendo ligado, a massagem cardíaca acontecendo, eu pedia a Deus: “Oh Senhor, ajuda a equipe”. Enquanto eles lutavam dentro da sala, no corredor sua mulher numa simplicidade enorme, segurava as duas mãos e esperava a hora de ver o marido.

A máquina está fazendo barulho, eu respirei e pensei: ele vai resistir. O movimento dentro da sala me agoniava, pois mal podia ver o que ocorria pela janela. Fui para a porta de vidro, e o barulho da máquina foi diminuindo até parar, ali eu já sabia. Ele faleceu.

Que dor meu Deus, que dor, pensei. Via entre a frecha da porta a enfermeira tirando o soro, arramando as mãos com as faixas e os pés. Logo, o pano branco o cobriu. Saiu uma enfermeira, em seguida outra, uma médica, e nada do anjo. A triste hora chegou. A enfermeira fala com a esposa: “A médica falou com a senhora? ” A esposa em sua simplicidade, responde não.

A médica logo veio, e disse com pesar no olhar: “A senhora é a esposa? Então, seu esposo chegou com muita dificuldade em respirar”. A esposa falou: “sim, já é segunda vez que ele veio aqui só hoje, a gente teve no Hugo, fez uns exames, mais ninguém falou nada”.

E a médica tentando dizer… “pois é, ele não estava conseguindo respirar, tentamos passar um caninho pela garganta para ajudá-lo a respirar, mas ele não resistiu.

A esposa olhou de um lado e do outro, colocou a mão na cabeça. Sua voz misturada com choro, iniciou em tom baixo. “Não, não, é mentira, meu Deus. Oh Senhor, o que vai ser de mim, por que fez isso comigo? ” E os gritos iam surgindo, as lágrimas iam caindo, e eu podia sentir a dor dela, todos ali podiam, a maior dor para mim naquela noite foi ver o olhar do filho dele de apenas 5 anos, encostado na pilastra, procurando entender o que aconteceu.

Essa crônica foi escrita pela Jornalista Cris Soares para o site iConnect