O livro enquanto objeto de discurso. Esta é a proposta da exposição Ci. Por una antropofagia contemporânea, que começou no último dia 24 de setembro e segue até 24 de outubro, em Madrid, na Espanha. As idealizadoras são Shay Reis, goiana, designer, fotógrafa e artista visual e a carioca Andréa Bellotti, também designer e artista visual. Juntas, elas utilizaram o Manifesto Antropófago, de Oswald de Andrade, como ponto de partida para discutir os ataques nacionais sofridos contra as diversidades culturais em uma proposta contemporânea.

De acordo com a crença indígena, Ci é a origem e preside o destino das coisas que dela se originaram. O indígena não concebe nada do que existe sem mãe. (Dicionário do folclore brasileiro). “Ci, mãe no mato” é também o terceiro capítulo do livro Macunaíma, de  Mário de Andrade, publicado em 1928, mesmo ano em que é publicado o Manifesto antropófago de Oswald de Andrade. Daí partiu o nome da exposição.

O convite foi feito pela editora espanhola Ediciones Ambulantes e a viagem foi possível graças ao apoio da Fundação Cultural hispano-Brasileira (criada pela embaixada do Brasil na Espanha e pela universidade de Salamanca). A exposição acontecerá na La Fabulosa, livraria localizada na Calle de Santa Ana, 3. 

“Através das diferentes linguagens visuais que estamos habituadas a trabalhar rotineiramente (design gráfico, design editorial, ilustração, fotografia, audiovisual), “mastigar”, “deglutir” e expor um olhar nosso da cultura brasileira numa tentativa de reconhecer em nós o que há do princípio, da origem, da raiz antes do colonizador. Resgatar o momento em que se oprime Pindorama e sua sociedade matriarcal e transformá-lo com nossas ferramentas é um dos nossos objetivos”, pontua Bellotti.

Shay Reis explica que a exposição conta com esculturas em livro, mosaico de livro fotografia entre outras derivações. “O debate é sobre o brasileiro enquanto povos originários e como o colonialismo afetou nossas raízes. Falamos de sociedade matriarcal e também nos ataques culturais, etimológicos, sexuais, políticos e religiosos que o país enfrenta. Tivemos, inclusive a criação da mixologista Mariana Burity, que desenvolveu um perfume a partir da raiz de priprióca, que ambienta a exposição. Este é um esforço criativo de traduzir sinestesicamente, da imagem ao cheiro, nossa percepção de um Brasil que luta para se redescobrir, se assumir e se afirmar diverso”, finaliza.

O manifesto

O Manifesto Antropófago, publicado durante o movimento modernista no Brasil, toma como ponto de partida o quadro Abaporu, de Tarsila do Amaral e sugere que “é pela assimilação que se pode ter uma visão crítica da história. A assimilação tem um papel de apropriação, de desierarquização, de desconstrução na tentativa de transformar algo desfavorável em favorável.” (CAMPOS, Haroldo).

Sobre as artistas

Shay Reis e Andréa Bellotti compartilham a arte, o trabalho e a vida. Se conheceram durante o curso de mestrado na Escola de Desenho Industrial da Universidade Estadual do Rio de Janeiro e desde então trocam ideias sobre aquilo que as afetam. 

 

Shay Reis é goiana, formada pela Universidade Federal de Goiás (UFG), do signo de Áries, tem ascendência negra, espanhola e francesa. Também é designer, artista visual e fotógrafa formada em artes visuais com especialidade em design gráfico. Como designer desenvolve Branding, identidades visuais, projetos gráficos editoriais e projetos audiovisuais. Como fotógrafa tem um trabalho íntimo com o palco, o estúdio e se estende até a fotografia autoral.

 

Andréa Bellotti é carioca, Libriana, tem ancendência indígena, negra, italiana e portuguesa. Também é designer e artista visual. Atua no mercado de design gráfico desenvolvendo Branding, ilustrações, capas e projetos gráficos editorias para livros. Há dois anos os objetos de casa têm se tornado cada vez mais presentes em seus projetos de design. Acredita na produção manual que dá alma ao objeto.

 

Sobre a Ará

Juntas criaram a Ará Design Lab. Na Ará Design Lab desenvolvem design estratégico para marcas; design original para projetos editoriais, corporativos e ambientais; além de projetos experimentais, projetos de audiovisual, fotografia, objetos, ilustrações ou qualquer outra coisa que houver desejo e inspiração para fazer. A Ará busca ser um espaço de experimentação com o intuito também de ir além das paredes do escritório. Para elas, interessa ter um trabalho que vá para um lugar de discussão contemporânea usando o design como ferramenta prática dentro das Artes Visuais.