A capacidade do ser humano de permanecer em casa confinado está sendo testada nesta quarentena. O novo coronavírus impôs no mundo um distanciamento social inimaginado até pelos infectologistas mais pessimistas. No entanto, a tecnologia tratou logo de manter as pessoas conectadas entre si. E não é diferente na relação dos autistas com os profissionais que os ajudam a superar déficits de comunicação, de interação social, problemas comportamentais e padrões restritos de interesse.

Videochamadas, áudios em mensageiros eletrônicos e acompanhamento a distância por programas de computador são algumas das ferramentas que estão garantindo as terapias de muitos portadores do Transtorno do Espectro Autista (TEA) sem interrupções, nestes dias de isolamento para frear a Covid-19.

“É claro que as mudanças para o atendimento online causam um certo desafio, mas depois que a gente aprender a trabalhar e a lançar as informações na ferramenta [um software] fica muito mais fácil para acompanhar o desenvolvimento dos nossos filhos”, relata Tatiane Carvalho, mãe de uma criança de 5 anos no TEA. Ela tem cada passo do tratamento monitorado através de um software para autistas.

Depois que pais como Tatiane relatam no software o comportamento das crianças na sessão terapêutica, os psicólogos, na outra ponta do processo, avaliam a evolução dos pacientes na fala, no aprendizado, na comunicação, no convívio social e na adaptação aos desafios do cotidiano, como a própria quarentena. A psicóloga Camila Rocca (CRP 08/28533) usa esse mesmo software, da startup goiana ABA+. Ela explica que todas as condicionantes analisadas determinam como será a próxima etapa da terapia dos autistas.

Há o cuidado em poupar o paciente de tarefas já realizadas satisfatoriamente, para não submeter o indivíduo com autismo ao estresse da pura repetição só para cumprir o que determina o plano terapêutico, sem considerar a evolução pessoal do autista. É o que justifica o analista de sistemas Vinícius Reis, criador do software. “O sistema tem essa sensibilidade para cruzar os dados e apontar as características de cada perfil. Com isso, ele acaba otimizando o tempo dos profissionais no trabalho presencial com os pacientes”, diz Vinícius.

O Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais da Associação Americana de Psiquiatria, o DSM-V, onde constam os critérios utilizados para o diagnóstico do TEA, preconiza que “o autismo é um espectro e não existem dois autistas iguais”. Choro ininterrupto; pouca vontade de falar; apatia; movimentos pendulares e repetitivos de tronco, mãos e cabeça; agressividade; e surdez aparente – quando, por exemplo, a criança não atende aos chamados – são alguns dos sinais e sintomas do autismo.

O TEA não tem cura, mas estudos mostram que é tratável com diagnóstico e intervenção precoces. Na maioria das vezes, o autismo é identificado na infância, entre 1 ano e meio e 3 três anos de idade. Esse diagnóstico é clínico, feito através de observação direta do comportamento e de uma entrevista com os pais.

Videochamadas que salvam vidas

Chamadas de vídeo, áudios e mensagens de texto foram recursos que um grupo de psicólogos voluntários encontrou para atender de graça as pessoas que se sentem solitárias e angustiadas no isolamento domiciliar. Os mensageiros eletrônicos estão conectando os solicitantes e os profissionais nos atendimentos individuais a distância, que ocorrem às segundas, terças e quintas-feiras, das 9h às 22h.

A tecnologia é aliada também para dar endereço aos psicólogos que se dispõem a realizar o suporte emocional. Eles podem ser encontrados no site evisa.fabricaderelacionamentos.com.br. Depois que o solicitante acessa a página e clica no ícone “Falar com psicólogo”, quem entra em cena depois, no time dos recursos tecnológicos, é o celular. O smartphone avisa o psicólogo da demanda e torna-se protagonista nessa rede de bem, com recursos que, antes ignorados, agora podem ser determinantes para salvar vidas.