Carnaval é tempo de festa, época em que as pessoas costumam extravasar e cair na folia. Mas, durante esse período, a mudança repentina de hábitos pode se transformar em risco para quem planeja uma gestação natural. Assim, a orientação dos especialistas é simples: com consciência e responsabilidade, dá para aproveitar plenamente o feriado e ainda garantir que a saúde esteja em dia após a festa. 

Nesse sentido, segundo especialistas, o ideal é evitar excessos e estar sempre atento para algumas práticas que podem impactar diretamente na fertilidade de homens e mulheres. Entre os principais perigos, vale destacar o consumo excessivo de álcool e de drogas ilícitas, o tabagismo, a privação de sono e os maus hábitos alimentares. A seguir, listamos algumas dicas de especialistas da Sociedade Brasileira de Reprodução Assistida (SBRA) relacionadas a hábitos que devem ser observados por casais que estão preparados para cair na folia e planejam engravidar neste ano. 

PREVENÇÃO A TODA HORA – Além da possível gravidez não planejada, a falta de prevenção aumenta o risco de propagação das infecções sexualmente transmissíveis (IST), responsáveis por 25% das causas de infertilidade segundo a Organização Mundial de Saúde (OMS). De acordo com a ginecologista Luciana Cortês, creditada pela SBRA, a infertilidade é uma das possíveis complicações quando a patologia sexualmente transmissível não é tratada em tempo. “Na mulher, elas costumam afetar a tuba uterina, que é o caminho percorrido pelos espermatozoides para fecundar o óvulo. Já no homem, as IST podem afetar a uretra (canal da urina), próstata ou epidídimo (local onde ocorre o amadurecimento dos espermatozoides). Com isso, a qualidade do sêmen fica comprometida”, explica. 

Para a médica, diagnosticar as IST e tratá-las em tempo hábil é uma dificuldade relevante. “Elas são frequentemente doenças silenciosas, ou seja, sem sintomas. Quanto mais tempo permanecem ocultas, maior será o dano. Porém, caso uma pessoa que já tenha contraído uma infecção sexualmente transmissível identifique problemas de fertilidade, é possível recorrer a métodos de reprodução assistida para que possa ter filhos”, conclui a especialista. Saiba como algumas das IST mais comuns podem afetar a fertilidade. 

EVITAR O CONSUMO DE BEBIDAS ALCOÓLICAS – Em relação ao consumo excessivo de álcool, a orientação é clara: para quem vai curtir o Carnaval e está planejando uma gestação, o consumo de bebidas alcoólicas deve ser evitado. Embora ainda não tenhamos todas as respostas sobre o assunto, a recomendação para as mulheres é que o consumo de álcool seja cortado durante o período pré-concepcional, devido aos danos que pode produzir ao futuro bebê. 

“O ideal é evitar ou reduzir o consumo de bebidas alcoólicas de três a seis meses antes da gestação ou do início do tratamento de fertilidade assistida. O consumo excessivo pode diminuir as taxas de gravidez espontânea e o índice de sucesso dos tratamentos de fertilização in vitro“, alerta o ginecologista Giuliano Bedoschi, creditado pela SBRA. 

TABAGISMO – Outro fator importante que deve ser considerado é o tabagismo, já que mulheres que fumam têm o dobro de risco de apresentarem infertilidade. Além de ser o causador de uma série de doenças crônicas (como no coração, vasculares, pulmonares e alguns tipos de câncer), o fumo tem influência direta na fertilidade masculina e feminina. “Quem planeja engravidar deve suspender o uso do tabaco o mais rápido possível, de preferência um ano antes. Quem já está grávida deve parar imediatamente. Caso não consiga, é necessário procurar ajuda especializada para evitar as consequências”, aconselha o médico creditado pela SBRA, Carlos Alberto Link. 

Nas mulheres, segundo explica Carlos Alberto, o cigarro interfere na queda da reserva ovariana e pode até antecipar a menopausa em um a quatro anos. Ele acrescenta que o hábito de fumar altera negativamente o tempo para alcançar a gestação. “Os componentes do tabaco têm efeitos nocivos diversos sobre as células germinativas. Entre eles, a nicotina, o monóxido de carbono e o cianeto, que podem causar alteração circulatória e levar à insuficiência placentária – responsável pelo retardo de crescimento intrauterino do feto”, explica. “As taxas de gravidez ectópica (fora do útero) aumentam nas mulheres tabagistas”, completa o médico. 

ALIMENTAÇÃO SAUDÁVEL – Durante o período de festas, também é comum que as pessoas se descuidem da alimentação, incluindo pizza e alimentos gordurosos, como os consumidos em redes de fast-food, no cardápio dos dias de folia. No entanto, para mulheres que tomaram a decisão de engravidar, esse tipo de comida deve ser ainda mais evitado. Um estudo publicado na revista Human Reproduction mostra que mulheres que comem fast-food com frequência têm mais dificuldades para engravidar. 

De acordo com pesquisadores, o tempo até a concepção das mulheres que têm dieta diária rica em frutas é menor (cerca de meio mês) do que o daquelas que consomem hambúrguer e pizza com frequência (quatro ou mais vezes por semana). Os dados revelaram ainda um risco de infertilidade duas vezes maior entre as mulheres que consomem fast-foods. Já as que não têm o hábito de comer frutas veem o risco de não conseguir gerar um bebê subir de 8% para 12%. Quase 5.600 mulheres no Reino Unido, na Irlanda, na Nova Zelândia e na Austrália participaram do estudo. 

Segundo Marina Barbosa, ginecologista associada da SBRA, no caso das mulheres, o sobrepeso ou a desnutrição podem afetar diretamente sua função reprodutora. Isso acontece devido ao desequilíbrio hormonal provocado por esses comportamentos, que acaba determinando uma disfunção nos ovários. Nos homens, a obesidade pode diminuir tanto a quantidade quanto a qualidade dos espermatozoides, interferindo também nos níveis de testosterona.  

Bruno Ramalho, médico e membro da diretoria da SBRA, ressalta que os prejuízos da obesidade podem ser observados tanto na fertilidade natural quanto nas técnicas de reprodução assistida, além de estar documentada maior ocorrência de abortos espontâneos. “A diminuição do desejo sexual e da frequência de relações sexuais também pode ser causa da menor fecundidade entre mulheres com obesidade, e algumas, inclusive, podem converter o desejo sexual em compulsão alimentar, o que agrava a obesidade e gera um ciclo vicioso que parece não ter fim”, completa. 

DORMIR BEM – O sono também pode ser um grande empecilho para casais que estão tentando engravidar. Apesar de não diminuírem os níveis de testosterona, distúrbios do sono estão associados à diminuição na quantidade de espermatozoides. “Na fertilidade feminina, a alteração do sono pode ativar substâncias das glândulas suprarrenais e gerar mudança da produção de hormônios reprodutivos. Além disso, dormir pouco pode levar o sistema imunológico a se voltar contra tecidos e órgãos saudáveis, causando uma inflamação que acaba afetando a fertilidade”, esclarece a ginecologista Marina Barbosa.