Fortes ondas de calor que comprometem a saúde humana, furacões e ciclones que arrasam cidades inteiras e intensas secas que reduzem significativamente as colheitas são alguns sinais, mas os danos causados ao planeta pelas mudanças climáticas são ainda mais profundos. Para se ter uma ideia, as dez maiores catástrofes naturais de 2020 geraram quase US$ 150 milhões (cerca de R$ 780 milhões) em prejuízos, segundo levantamento da ONG britânica Christian Aid. Esses desastres também deixaram 3.500 mortos e 13,5 milhões de desabrigados e mais: os impactos causados pela mudança climática poderão levar mais 100 milhões de pessoas à pobreza até 2030, segundo relatório da ONU, publicado em 2019. O assunto merece destaque neste 16 de março, Dia Nacional de Conscientização sobre as Mudanças Climáticas.

Cientistas em todo o mundo são enfáticos em decretar: estamos vivendo um “estado de emergência climática” que afeta a nossa saúde, a economia, e claro, o lugar onde vivemos. Para a arquiteta e urbanista Sarah Cascão, as mudanças climáticas são avisos muito claros do quão nocivo vem sendo estes anos sem planejamento e respeito ao espaço em que vivemos. “Os centros urbanos precisam implantar ações para reverter os efeitos predatórios de anos. Hoje já existem exemplos de cidades com conceitos sustentáveis, como as Smart Cities, ou Cidades Inteligentes, onde pessoas interagem e usam energia, materiais, serviços e financiamento para catalisar o desenvolvimento econômico sustentável. Ou seja, é o uso otimizado do espaço, buscando a sustentabilidade em todos os aspectos econômico, social e ambiental”, afirma a especialista.

A urbanista explica que, além do planejamento da cidade, os modernos empreendimentos também já imprimem em seus projetos soluções que atendem a esse apelo ambiental. “Vemos hoje muitos exemplos de construções, que buscam  uso de materiais construtivos mais sustentáveis, adotam sistemas de reuso de água, energia renovável e redução de resíduos”, destaca.

Goiânia, apesar de ser considerada a cidadel mais arborizada do País  enfrenta desafios para manter o equilíbrio ambiental no meio urbano. De acordo com a arquiteta e urbanista Sarah Cascão, a capital goiana já traz em sua legislação importantes avanços neste sentido.

“Em Goiânia vemos sim essa preocupação quanto aos problemas climáticos. O código de edificações do município estipula, por exemplo, a porcentagem mínima de permeabilidade, o que é importante para a preservação dos lençóis freáticos,  para a manutenção de bons níveis de sombreamento e redução dos impactos das fortes chuvas. Outro avanço importante foi a criação da Lei das Calçadas que permite, além de medidas de sustentabilidade, o uso de cobertura vegetal em determinados trechos da calçada.

Mas apesar dos avanços na legislação, Sarah avalia que muita coisa pode e deve melhorar. “Falta fiscalização sobre o uso e aplicação dessas leis. A cobrança do poder público sobre o cidadão precisa ser sistemática e ao mesmo tempo com efeito de conscientização, para que essas práticas sejam colocadas em ação e com isso possamos ver daqui uns anos o resultado. Vale lembrar que ainda há muito a ser feito, muitas de nossas leis precisam ser revistas, precisam ser praticadas pelo poder público e pela sociedade”, pondera a especialista.

Impermeabilidade
E ainda falando sobre o problema da impermeabilidade do solo, Sarah lembra que o excesso de massa asfáltica na cidade, em detrimento de mais áreas verdes, além de impedir a adequada absorção das águas das chuvas pelo solo, causando enchentes e enxurradas, nos períodos de seca eleva as temperaturas. “A impermeabilidade é uma questão que já vem dando seus alertas, e já faz um tempo. Hoje existem leis e normas que obrigam que uma porcentagem de cada terreno seja permeável. Porém, falta fiscalização sobre esse ponto, para que cada proprietário de cada terreno cumpra. Também faltam leis que estimulem o cidadão a seguir essas normas e a conscientização das próprias pessoas de que elas também são responsáveis pelos problemas na drenagem urbana”, esclarece.

Outro ponto importante para mitigação dos efeitos das mudanças climáticas nos centros urbanos é a necessidade de criação de mais áreas verdes. “A existência de áreas verdes dentro do meio urbano auxilia na redução da poluição do ar, na interceptação da água de chuva, no sombreamento e estabilização da temperatura, na redução do ruído e principalmente nesse período de pandemia vimos a necessidade desses espaços abertos e arborizados para o bem-estar psicológico e físico das pessoas”, explica a arquiteta e urbanista.

Além do ganho ambiental, Sarah destaca que áreas verdes também estimulam uma melhor convivência social e a caminhabilidade. “Os grandes espaços arborizados permitem a convivência saudável. Vale lembrar que as áreas verdes não devem ser relegadas apenas aos parques e praças, a arborização tem que estar implantada na malha viária, nas calçadas e ciclovias, esse é o estímulo que as pessoas precisam para andar mais a pé e de bicicleta, além do sombreamento na vias o conforto visual para aqueles que usam é um atrativo a mais para deixar o carro em casa”, comenta.