Não faz muito tempo e o mercado da moda funcionava assim: a tendências eram apresentadas em desfiles, cujas revistas de moda repercutiam na edição de suas publicações do próximo mês. As novidades chegavam nas lojas aos poucos, até seis meses depois. A espera era alimentada entre as consumidoras. Mas, nos últimos anos, com propagação instantânea dos desfiles nas redes sociais e com o crescimento do e-commerce, esse fluxo foi encurtado. A timeline das compradoras passou a ser bombardeada de ofertas, tendências e opções, e entrou em cena a prática “see now, buy now”, que traduzindo significa “veja agora, compre agora.”

Esperar pacientemente pela nova coleção chegar nas lojas e alimentar a fantasia de abafar usando aquele modelito da revista, virou coisa do passado. O comportamento vem ao encontro de uma pesquisa realizada com 910 consumidores de ambos os gêneros, todas as classes sociais, acima de 18 anos e nas 27 capitais do país que são atendidas pelo Serviço de Proteção ao Crédito (SPC). Ela revela que roupas, calçados e acessórios são os objetos do desejo dos consumistas por impulso. Os três tipos de produtos lideram as compras, com 19% de preferência, sendo que a compra de peças de vestuário e acessórios são feitas na maior parte pela parcela feminina.

Uma das precursoras do movimento no mundo foi a famosa marca britânica Burberry, em 2016. A plateia do desfile da nova coleção lançada em Londres já podia entrar no portal da marca e comprar a peça que estava sendo exibida naquele momento. Em Goiás esta proposta já está sendo colocada em prática pela grife Jean Darrot, que reestruturou todo o seu processo produtivo para promover o lançamento coleções todos os meses e lança, na quarta-feira, 23 de maio, a coleção Be Romantic já neste sistema. “As novas peças serão apresentadas nas redes sociais e em um desfile em nosso novo showroom, mas já estarão disponíveis nas araras de nossas 21 lojas pelo Estado”, diz Lorena Darrot, diretora de estilo da marca.

Ao invés de lançar duas novas coleções ao ano, cujas peças chegavam ao longo do meses nas lojas, agora elas foram divididas em coleções menores, lançadas todos os meses, cujas peças já estão disponíveis nas vitrines a partir da primeira divulgação. Maria José Mamede, que é estilista da marca, conta no modelo tradicional, era comum que as clientes ficassem ansiosas. Porém, tornou-se mais comum perder a venda, pois elas passaram a não mais esperar pela peça chegar.  “Elas procuravam as lojas em busca de uma determinada peça que, muitas vezes, chegaria apenas dois ou três meses depois de lançadas. E acabavam desistindo, provavelmente porque substituiu a compra por outra peça”, revela.

Mudanças internas

Ela observa que a tendência é o uso das redes sociais como a grande protagonista para a propagação das novidades, o que torna o tradicional catálogo como uma ferramenta secundária. Mas não foram apenas estas as mudanças. O  modelo see now, buy now exigiu uma reestruturação de processos de processos de produção e distribuição, uma mudança que envolveu toda a equipe. Ela explica que os investimentos em tecnologia, consultorias e treinamentos foram fundamentais para se acompanhar essa nova lógica de consumo. “Tivemos de investir muito, em cada etapa do processo, na criação, produção, logística, marketing e vendas. Nossa meta foi nos adaptar sem perder a qualidade e a originalidade”, conta.

Entre os benefícios, Lorena Darrot conta que a mudança trouxe muito mais dinamismo para a marca, que passou a ter novidades todos os meses, sempre disponíveis para a compra imediata. A fábrica ganhou fôlego para produzi-la com agilidade, já que são menos peças e, ao mesmo tempo, tornou-se possível avaliar melhor a receptividade das consumidoras: aquilo que não tenha feito muito sucesso, não tem produção para reposição. “Tudo isso torna a empresa mais competitiva e evita as grandes perdas com estoque, um fantasma na vida de empresários da moda”. A experiência, em sua visão, mostra que as empresas goianas podem sim adotar esse sistema e competir à altura com empresas internacionais no mercado da moda.