Os tratamentos contra o câncer já não são uma sentença de infertilidade para as mulheres em idade fértil que acalentam o desejo de ser mãe. Para elas, a maternidade é algo possível graças à oncofertilidade – área da reprodução assistida que preserva a fertilidade nas pacientes em tratamento contra a doença.

A enfermeira paranaense Alessandra Gimenes, 37 anos, está na fase final da luta contra a doença e já planeja a primeira gravidez. Ela foi diagnosticada no início de 2016 com cinco nódulos na mama. “O médico explicou que o caso era sério. O tratamento seria o mais completo e forte”, conta. Diante da afirmação, ela questionou ao especialista se poderia ter filhos depois da quimioterapia. O médico disse que provavelmente não seria possível engravidar. A saída seria o congelamento de óvulos antes de iniciar o tratamento quimioterápico. 

Preocupados com a saúde de Alessandra, os familiares da enfermeira pediram pra ela esquecer os planos da maternidade e focar no tratamento, mas ela preferiu levar adiante a vontade de gerar um filho no futuro. “Nunca me perdoaria se amanhã eu descobrisse que não poderia engravidar por não ter congelado meus óvulos. Agora, se mesmo congelando eu não conseguir engravidar, vou entender que não era a vontade de Deus. Pelo menos fiz tudo o que estava ao meu alcance”, diz.

Alessandra então começou uma corrida contra o câncer e o tempo. A cirurgia para retirada dos nódulos foi marcada para maio daquele ano. Em junho, ela congelou dez óvulos e logo depois iniciou as sessões quimioterápicas que duraram dois meses. 

Hoje, mais de três anos depois, Alessandra está otimista com a evolução do tratamento e está na expectativa da primeira gravidez. “No próximo mês, tenho consulta com minha oncologista. Se tudo continuar correndo bem, vou parar de tomar os medicamentos e poderei engravidar. Depois da gestação, retomo a rotina de remédios por mais dois anos”, comemora. 

Perspectivas animadoras – De acordo com a Sociedade Brasileira de Reprodução Assistida (SBRA), um dos maiores efeitos negativos dos tratamentos para o câncer é a infertilidade. As drogas quimioterápicas, a cirurgia e a radioterapia podem promover lesões nos ovários ou nos testículos, no caso dos homens, impactando ou até destruindo a capacidade reprodutiva. Por meio da oncofertilidade, os médicos trabalham em busca de criar uma sobrevida de qualidade para as mulheres que venceram a doença e querem engravidar. 

“No caso da quimioterapia, essa lesão pode atingir os óvulos e os folículos ovarianos. Já a radioterapia pode comprometer a fertilidade, no caso das mulheres, porque a incidência provoca a destruição dos folículos primordiais o que causa a diminuição da reserva de óvulos ou uma falência ovariana. No caso dos homens, mesmo doses baixas de radiação podem levar a alteração da espermatogênese às vezes de forma irreversível”, explica Dr. Álvaro Ceschin, especialista creditado pela SBRA que acompanha até hoje o tratamento de Alessandra. 

Segundo ele, o tempo é precioso para as pacientes, pois o encaminhamento ao especialista em reprodução humana e os procedimentos de criopreservação têm que ser realizados antes do tratamento escolhido no combate ao câncer. “A visão multiprofissional é absolutamente essencial neste tipo de paciente. Por isso, é de fundamental importância a interação entre oncologistas, especialistas em reprodução humana e demais profissionais envolvidos nas áreas”, afirma. 

De acordo com Ceschin, o congelamento de óvulos não é a única alternativa para as pacientes. Os avanços dos tratamentos oncológicos são constantes e isso têm possibilitado perspectivas animadoras. “As técnicas de criopreservação disponíveis para mulheres são congelamento de óvulo, embrião e de tecido ovariano. Já para os homens, realizamos o congelamento dos espermatozoides”, explica o especialista. 

Força e esperança – Assim como Alessandra, muitas outras mulheres acometidas por câncer de mama – o tipo mais comum da doença entre as brasileiras – não perderam tempo e optaram pela oncofertilidade para realizar o sonho de ser mãe. Foi o caso da publicitária sergipana Renata Abreu, 34 anos. Ela descobriu o câncer no início de 2019 após investigar um cisto no seio direito. “Nunca pensei que ia acontecer comigo, principalmente porque não estava no chamado grupo de risco: não tinha sobrepeso, tinha só 34 anos, não tinha histórico na família e tinha um estilo vida relativamente saudável. Foi tudo muito rápido. Descobri o câncer no mês de março e, em maio, eu já estava fazendo a retirada das duas mamas”, conta. 

Além dos sentimentos decorrentes da doença, como o medo da morte e a incerteza quanto ao futuro, ela ainda recebeu a notícia de que o tratamento contra o câncer poderia causar infertilidade. “Como era muito nova e ainda não tinha filhos, resolvi fazer o congelamento dos meus óvulos. É um processo caro, mas resolvi fazer para garantir que eu ainda poderia ter filho”, diz. 

No caso de Renata, o diagnóstico rápido e os esclarecimentos do médico foram determinantes para a opção pelo congelamento dos óvulos. “Em 20 dias, tive que decidir se faria o congelamento, iniciar o tratamento de indução, passar pelo procedimento para depois iniciar a quimioterapia”, lembra a paciente que já fez 11 sessões de quimioterapia até o momento, de um total de 16. 

Hoje, seis meses após o diagnóstico, Renata já enfrenta a doença de uma maneira diferente e convive com a rotina e ajuda outras pessoas que realizam o tratamento. “Nós precisamos desmistificar muita coisa sobre o câncer de mama. Depois que eu recebi essa notícia comecei a viver melhor, cuidar da mente e do corpo, procurar terapias alternativas. Eu aconselho que essas mulheres procurem apoio, amigos e familiares. Eu tenho uma conta no Instagram (@renata7up) onde divulgo um pouco da minha história. Isso tem me ajudado muito, principalmente por saber que estou ajudando outras pessoas”, afirma. 

Alessandra Gimenes também aconselha outras pacientes que estão em tratamento a entender o propósito de tudo que estão vivendo. “Que elas possam extrair o melhor dessa situação a ponto de poder ajudar outras mulheres que estejam passando pela mesma condição. Que elas busquem na dor uma maneira de tocar os corações e espalhar amor. “, diz.

Esclarecendo dúvidas – A oncofertilidade ainda gera questionamentos em muitas pessoas. Para esclarecer um pouco mais a respeito do assunto, o Dr. Álvaro Ceschin responde algumas questões. Confira: 

1 – Como o tratamento contra o câncer afeta a fertilidade? As gônadas (ovários e testículos) têm células que estão em fase de divisão celular. As drogas quimioterápicas atuam justamente sobre as células que estão nesse processo, atingindo tanto as cancerígenas, como as saudáveis, no caso as espermatogônias (nos testículos) e os folículos (nos ovários). 

2 – É correto afirmar que nem todos os tumores e tratamentos oncológicos afetam a fertilidade dos pacientes? Depende muito do tipo histológico e do estado da neoplasia. A idade no momento do tratamento, como a quimioterapia, também é outro fator que pode influenciar na possibilidade de gestação espontânea ou infertilidade.

3 – Quais são os fatores considerados na hora da escolha do tratamento adequado para quem deseja engravidar? A idade e o desejo reprodutivo seriam uns dos principais fatores a serem avaliados, além do tipo e grau de neoplasia que o paciente está enfrentando. 

4 – Quais são as recomendações que o senhor deixa para as mulheres que estão vivendo essa situação neste momento? Para o paciente, o tempo é algo precioso que não pode ser desperdiçado, pois o encaminhamento ao especialista em reprodução humana e os procedimentos de criopreservação devem ser iniciados antes dos procedimentos de combate ao câncer, como a quimioterapia, a radioterapia ou mesmo a cirurgia.