Uma pesquisa do Instituto Brasileiro de Opinião Pública e Estatística, o Ibope, realizada no ano de 2015, revelou que 79% dos brasileiros seguem ao menos uma religião. Considerando também os que não têm um credo específico, mas se dizem espiritualizados, o percentual de quem declara ter algum tipo de crença ou prática espiritual chega a quase 98%. Um outro estudo mais recente, de 2017, feito por um pesquisador da Universidade de São Paulo (USP), revela que 55% dos brasileiros rezam ou oram diariamente.

 

Os dados demonstram, claramente, o quanto o aspecto espiritual tem peso no dia a dia do brasileiro. Estresse, violência, questões econômicas, dificuldades familiares, problemas de saúde, incertezas na vida profissional, solidão, seja qual for a dificuldade, a prática de uma espiritualidade tem servido de suporte para o enfrentamento de diversos problemas, ganhando espaços que vão além dos templos e santuários.

 

A URBS Imobiliária adotou, há cerca de quatro anos, a prática da prece, que vem em forma de um convite para orar o Pai Nosso, umas das orações mais populares entre os cristãos e que é utilizada por várias religiões. O momento de espiritualidade ocorre sempre na sede da empresa no Setor Marista, durante a reunião geral de equipes, a cada semana, e até mesmo fora da corporação, durante os meetings com os corretores de imóveis.

 

Um dos diretores da empresa, Ricardo Teixeira, conta que a prática surgiu de forma espontânea e foi se tornando um hábito. “Ao longo desses quatro anos em que temos feito esse convite para a oração, percebemos que isso motiva as pessoas, as fortalece emocionalmente e dá um respiro para nossas reuniões”, diz.

 

Conforme Ricardo Teixeira, apesar de não ser obrigatório, o convite para esse momento de espiritualidade é aceito por praticamente todos os colaboradores e os corretores de imóveis que prestam serviço para a imobiliária. O executivo avalia que a prática saudável da espiritualidade e da religiosidade no trabalho reforça nas pessoas valores de vida importantes, tanto para o campo pessoal, quanto o profissional. “Independente da religião, a oração traz paz, une as pessoas, é carregada de boas intenções e de coisas positivas”, argumenta.

 

Cordialidade

Outra empresa que também está dando atenção maior para a questão da espiritualidade é a Dinâmica Engenharia. Para criar um ambiente corporativo mais humanizado no dia a dia, ela implantou um programa de conduta para valorizar as relações interpessoais. A ideia é que, mesmo com o ritmo acelerado e o foco para se alcançar resultados, a equipe não entre no automático e desenvolva hábitos de convivência e cordialidade.

Um desses pontos é exercer a espiritualidade, mesmo no ambiente de trabalho, em especial antes de começar o expediente, realizando uma oração, um momento de reflexão ou fazendo uma pequena pausa para olhar para dentro de si. O gesto simples pode fazer a diferença para o dia do outro, na visão do diretor da empresa Mário Valois, que sugeriu o desenvolvimento do projeto. “Acho que, quando a pessoa se sente acolhida, ela melhora seu estado de espírito, trabalha melhor. Elas acabam tornando-se mais felizes, pois se sentem valorizadas”, destaca o executivo sobre os benefícios gerados pela atitude.

 

Bem-estar

Apesar de ser algo de cunho pessoal e muitas vezes parecer incompatível com um cenário impessoal e frio de uma empresa, momentos de espiritualidade no ambiente corporativo são bem vistos por especialistas em gestão e pessoas. A prática da oração no trabalho é tida por muitos profissionais de recursos humanos como uma oportunidade para que os funcionários possam ter um tempo à reflexão, ao agradecimento, levando descanso para a mente e consequentemente uma sensação de bem-estar.

 

A especialista em desenvolvimento humano Karina Duarte Lopes explica que a espiritualidade une pessoas diferentes e inspira o respeito entre elas, algo essencial dentro de uma empresa. “No trabalho as pessoas têm um propósito em comum e momentos como esse servem para mostrar que estão todos juntos e podem se ajudar”, analisa a consultora.

 

A ressalva que a especialista faz é a importância de separar esses momentos de espiritualidade do aspecto profissional de fazer o que tem que ser feito e gerar os resultados esperados. “A distinção entre aquele momento de união, paz e espiritualidade e a continuidade do profissionalismo para agir de forma produtiva e eficaz em um mercado cada vez mais competitivo e inovador, pode sim resultar em uma combinação impactante para empresas e seus funcionários”, alerta Karina.