Sensação de cansaço e peso nas costas, dores contínuas e que podem afetar membros inferiores e superiores. Esses são alguns dos sintomas que podem indicar algum problema de saúde relacionado à coluna vertebral. Nos últimos dez anos, esse tipo de enfermidade tem liderado o ranking dos motivos para afastamento do trabalho e concessão de auxílio-doença, segundo dados da Previdência Social. Só em 2017, mais de 83 mil trabalhadores brasileiros tiveram que deixar seus postos de trabalho por causa da dorsalgia (dor nas costas).

Esse elevado índice de afastamentos tem despertado a atenção dos departamentos e profissionais da área de segurança e saúde do trabalho, em especial, nas empresas do setor da construção civil. Em Goiás, o Seconci Goiás – Serviço Social da Indústria da Construção – mantém um trabalho contínuo de prevenção e tratamento para os colaboradores de mais de 200 empresas associadas à entidade. Esse atendimento inclui consultas com ortopedista e palestras em obras sobre ergonomia, com o tema “Cuidados no Transporte de Cargas”, e sobre o uso correto dos Equipamentos de Proteção Individual (EPIs), além de envolver também, em alguns casos, sessões de fisioterapia e de pilates, um conjunto de exercícios que são feitos, com ou sem equipamentos, para o desenvolvimento equilibrado do corpo, por meio dos núcleos força, flexibilidade e consciência.

É desenvolvido também o Projeto Enfrentamento da Dor Crônica, um acompanhamento psicoterápico em grupo (reuniões quinzenais) dos pacientes da Ortopedia e Fisioterapia com dor crônica, que é associada a um dano físico real ou potencial, com duração superior a 30 dias, investigando seu estado emocional e a influência das condições psicossociais na evolução do seu tratamento e propiciando uma escuta terapêutica.

Só no ano passado, os trabalhadores da construção civil em Goiás foram atendidos em mais de 4.400 sessões de fisioterapia e em outras 1.685 sessões de pilates, realizadas num espaço apropriado para essas atividades montado na sede do Seconci Goiás, especificamente para esse fim. “Os problemas de lombalgia atrapalham não só a vida profissional do trabalhador, mas impedem também que ele tenha uma vida plena em todos os sentidos, pois impacta em seu lazer, no seu momento de descanso, relacionamentos. Então, esse trabalho do Seconci tem uma relevância que vai além da segurança do trabalho”, pontua o presidente do Seconci Goiás, Célio Eustáquio de Moura.

“Bicos”

De acordo com o médico ortopedista do Seconci Goiás, Reginaldo Mendonça Fernandes, os transtornos de coluna vertebral, tendinopatias, tenossinovites e bursites estão entre as principais doenças que afetam profissionais da construção civil. Segundo ele, o aumento desse volume de afastamentos do trabalho por causa das lombalgias, frequentemente, é ocasionada pelo mau uso dos (EPIs), por parte dos colaboradores, e ainda devido a hábitos posturais errados.

“Essas práticas inadequadas acontecem muito quando eles [os trabalhadores] fazem os chamados ‘bicos’ fora das empresas onde são devidamente contratados. Em obras pequenas, que fazem como serviço extra, a grande maioria dos profissionais deixa de observar as práticas posturais adequadas e a segurança, diferente de uma obra profissional, onde temos os EPIs e onde há um técnico de segurança do trabalho orientando sobre a quantidade e o peso máximos a serem transportados e a postura correta durante suas atividades”, explica o médico.

Descuidos

O pedreiro Francisco Rodrigues de Miranda, 50 anos, hoje sente na pele os cuidados que deixou de tomar quando mais jovem e atualmente se recupera de uma hérnia de disco e do desgaste na cartilagem da lombar. O operário é um dos profissionais que fazem tratamento no Seconci Goiás e elogia os resultados das sessões de pilates e de fisioterapia que faz.  “Se não fosse esse tratamento talvez eu nem estaria andando”, comenta Francisco.

Ao longo de 20 anos de profissão, ele admite que em muitas ocasiões negligenciou as precauções com a coluna, principalmente quando trabalhava em obras pequenas. “Quando iniciei na profissão eu não me preocupava muito com os possíveis danos que poderiam ser causados à minha saúde e fazia muitas atividades de forma incorreta, pois me faltava conhecimento. Eu carregava sacos de cimento sozinho, por exemplo. Não fazemos isso mais na obra, temos maquinário e grupos para realizar tarefas que exigem levantamento de peso. Apesar de eu não saber dizer exatamente quando meu problema começou, sei que de alguma forma o acúmulo de atividades com má postura acabou prejudicando minha coluna. Agora estou bem orientado pela equipe do Seconci e quando for fazer alguma atividade que exija esforço farei da forma correta”, pontua ele.

Com sérios problemas em seu nervo ciático, o porteiro José Teodoro Gonçalves, 68 anos, conta que desde 1993 sofre com dores  no quadril e pernas e que já perdeu as contas de quantos remédios já teve que tomar para tentar resolver o problema. Mas segundo ele, resultado efetivo mesmo só conseguiu com as sessões de fisioterapia e pilates oferecidas pelo Seconci Goiás. “Antes de começar o tratamento aqui [no Seconci Goiás] eu estava tão doente que mal conseguia levantar da cama. Mas com os medicamentos corretos, mais a fisioterapia e o pilates, hoje sou uma nova pessoa e consigo trabalhar normalmente”, comemora.

Multidisciplinar

Segundo o fisioterapeuta do Seconci Goiás, Raydel Marques Machado, os bons resultados alcançados por Francisco e José Teodoro foram possíveis porque o tratamento não foi só com medicamentos, mas de forma multidisciplinar envolvendo profissionais de várias áreas, como a ortopedia, a fisioterapia e até o serviço social e a psicologia, quando necessário. “O que fazemos aqui com cada paciente, não só combate a dor, traz outros benefícios para a qualidade de vida, como melhora da autoestima, autoconfiança e mais vigor físico. Buscamos ajudar o trabalhador a reconhecer o seu corpo e fazer com que ele se reeduque”, esclarece o profissional.

A fisioterapeuta Érika Vieira Rezende é a responsável pela aplicação do método pilates aos trabalhadores que são atendidos no Seconci Goiás. Segundo ela, a ação inicial do tratamento é focada no controle da dor e nas limitações funcionais provocadas pela enfermidade. Em seguida, com os recursos da biomecânica e exercícios específicos, é feito um trabalho de educação do corpo, ou seja, a pessoa é orientada para desempenhar da forma correta atividades que exijam esforço físico dos membros. “Os principais benefícios do Pilates são a melhora na consciência corporal, da estabilidade da coluna, alongamento, fortalecimento muscular e diminuição do estresse muscular”, destaca.